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sábado, 2 de julho de 2011

Sozinhos

Era você
que lembrava de mim
em todas as noites
sozinhas
você e as noites
de inverno e verão
que choravam
pelas perdas que nem sentiram
ou sequer ouviram falar
mas que são perdas
e que por si só
fazem chorar qualquer um

não era eu
que chorava todas as noites
sem meus olhos

chorava pelas janelas
do meu coração
que estilhaçadas
jorravam cachoeiras
de tamanha tristeza e penar

era eu
que te via
passar em obras de arte
até em museus que nunca fui
ou em quadros que nunca vi
te via passar
a unica coisa que
eu via aliás
sem você por perto
era eu
eu sozinho

eu

eu
sem
eu
sem
você

sábado, 18 de junho de 2011

Em pedaços

uma construção
concreta
de mim pra eu mesmo
feita do barro mais limpo
que toda a cidade já viu
caiu e se quebrou
caiu e me quebrou
em cacos de barro

ainda que um barro limpo
me sujei vermelho de sangue
vermelho sangue de barro
e chorei
todas as lágrimas barrentas
do mundo em meus olhos

não via você
agora eu precisava ser agora
precisava ser o momento que quis
à espera de fé
numa deriva de loucos
à espera de um buraco de coelho
que me sugasse
e me fizesse conhecer
o barro do qual fui feito

terça-feira, 31 de maio de 2011

poema 5

o infinito que vejo
debaixo dos meus pes
me preocupa
me descabela
apenas na sua existencia
ja sinto que me desagrada
como uma cor nova
que descarto
e não uso na minha tela
porque na minha tela
so ha cores que escolho
por tato
audição e olfato
e se identifico-as ao meu ser
penso que posso usa-las
sem medo
ou restriçao
que me façam
vê-las falhas

como a tinta
das minhas maos
sinto que escorres
de mim
sinto que mesmo
tentando te espalhar
cada vez mais
seu dispersante dilui
e me pinto com agua
em preto e branco
sou só eu
pintado sem me ver
como um louco
pintando telas em branco

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Estilhaço

Não lembro se te vi outro dia enquanto passava perto da padaria em que nos encontramos e paramos para comer joelhos e salgadinhos juntos na padaria do Manoel pertinho lá da sua casa. Também não me lembro das formas que o seu rosto mostrava pra mim ou se o seu rosto era o meu lugar onde perdia todas as noções de espaço, tempo, ou qualquer outro sentido terreno e humano. Não lembro os tempos, as formas que queria ter visto ao encontrar seus belos olhos quando passei de novo pela padaria, ou se realmente te vi quando passei por aquela padaria. Não me lembro de você. Não me lembro de quando te vi na padaria do Manoel onde paramos para comer alguns folheados e docinhos. Nem a cor dos olhos que vi refletidos no vidro do tampo da mesa em que sentei sozinho outro dia numa padaria que fica no centro e é bastante longe da sua casa ou da minha. Padaria boa, aliás. Não lembro se vendia folheados, mas lembro que havia uns pães doces maravilhosos e que pedimos 3: um pra eu comer e os outros dois para eu olhar você comendo. É tudo tão confuso e desencontrado quando estou com seus olhos me olhando de perto. Não lembro quantas vezes cheguei a comentar isso com você mas eu tenho a impressão que eu te vi outro dia enquanto passava perto daquela padaria do Manoel que você dizia que era horrível e que nunca iria por os pés naquela espelunca. Eu não lembro mas realmente acho que te vi naquele dia, e que você fez de conta que precisava atravessar a rua e ir para o outro lado e quando corri atrás vi que luzes verdes se acenderam sem propósito nenhum. Depois disso fica difícil lembrar a cor dos seus olhos. Eu tento até lembrar de coisas que me dizia enquanto íamos tomar chá em várias padarias inclusive a do Manoel, mas realmente não sou capaz de lembrar qual padaria era a sua preferida. Provavelmente é a do Manoel pois é bem perto da sua casa. Ou talvez seja a do centro onde sempre comemos bolo de cenoura e bolinhos e que fica pertinho da sua casa, já que é na mesma rua que a padaria do Manoel. Não lembro a cor dos seus cabelos nem o jeito que eles fazem quando balançam ou a cor da luz que eles projetam na parede do meu armário quando o sol começa a acordar. Só lembro que te vi outro dia enquanto passava perto da padaria, disso tenho certeza agora, e lembro que você veio ao meu encontro com seu sorriso de mil galáxias aberto pros meus abraços apertados e que sentados na sua padaria predileta (a do Manoel) comemos madrilenos cheios de creme e goiabada que você gosta e chá de paixão que eu gosto e que sempre tomo na padaria do Centro, mas que nunca tem na padaria do Manoel.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Oliver


eram balas de leite
dessas de feira
que se misturam à lingua
Oliver colocou tres de uma só vez
na boca
num ato impensado
e refletido
de dentro pra fora
pois
sempre fora assim
(esse Oliver tem cada tirada)
teimoso em contradição
por tudo que lhe fora imposto
e proibido
e que sempre quis provar
ou fazer justamente o contrário
pra conhecer o errado
ou pra saber
realmente
se o errado
é apenas medo
medo de tudo
medo do mundo
medo do medo
medo do todo
medo da perda
ou de qualquer
desgraça
um medo ao qual
está mais que habituado


a criança nunca sabe nada
até que mergulha em vida
e descobre que sabe tudo
e que se quiser saberá ainda mais
e sente que em sua essência
há algo de desbravador
algo estranho que deseja
se soltar
como um cão furioso
preso em correntes
que não é capaz de controlar

[como um aventureiro das histórias que costumava ler, Oliver percebe que pode ser o que quiser e andar por caminhos que quiser, para isso basta apenas guardar todo o medo em seu baú de brinquedos junto com seu time de botão]

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Algo simples

não penso se sou
como ser pensado
e pensante
apenas deslizo nas curvas
dos desejos que
me escondes
as mãos a boca
debaixo de não sei mais quais lençóis
é tão dificil saber afinal
que nem tento mais
deixo-me embaralhar nas suas frases
deixo-lhe saber se quiser
que desisto à resistência
dos sóis que me deste
e que ao fim
serão assim
algo sim
simples
e a sós poderei
ser calado e cinza
um eu que obecede
as ordens e
a qualquer chamado
do amigo que carrego no peito

o fim
que é imposto
e não oferecido
não é vão
se os sonhos
forem menores que
as vinhas da iniciativa
esse fim
é dádiva.
E com choro lhe recebemos
como a benção
de poder envenenar-se
à beira de tortura

segunda-feira, 2 de maio de 2011

(Des)Costumes


adaptei-me ás nossas desculpas
talvez por ja ter rido
com outros risos
ou chorado em outros olhos
tentativa tola e futil
de justifucar rompantes de arrependimento
que nem sei de onde surgiram
ou se não precisaram surgir
e estiveram sempre aqui
num canto qualquer de mim
ou de nós
doce criança
só esperando uma chance
e quando a teve
fez jus ao tempo que esperou
desabando sobre nossa cabeça
mil lajes de concreto
cem pedidos de desculpa
e uma cicatriz tão dolorida
que nosso corpo
nem sabe ao certo onde está