quarta-feira, 22 de julho de 2009

Estátua

Triste, a moça explica-me,

olho para baixo,

pra onde esses pés tão me levando?

Insatisfeito, durmo.

A moça insiste,

olho pro rapaz que a ouve,

Aceita!

E o rapaz é como pedra fria,

cercado de pombos,

por que não a responde?

Há pouco amarelo no céu,

e o tempo do rapaz se vai,

Levanto-me pra poder ver,

os pássaros que levam a moça,

bela moça, aliás.

E os pés do rapaz o levam a outros,

que desgraça,

Por que não me ouves mais?

Portas se abrem pra moça,

Já não vejo mais,

só sinto as caricias dóceis do vento,

E o rapaz não se acha,

vive só junto aos pombos,

Pra onde você foi?

Ainda não se libertou.

Tento lhe ajudar.

Solte-o da carceragem!

E o rapaz nem se manifesta,

está conformado com limites da camada de cimento,

que o encerra.

sábado, 11 de julho de 2009

Breve história do Sr. Manoel Figueiredo

Nasci, e não satisfeito com a graça obtida, me resignei a ser naturalmente rabugento. E já fui logo colocando pra dentro todo o ar que pude, na esperança de explodir meus fracos pulmões. Inconsciente, ia pondo em prática alguns planos maquiavélicos, verdadeiros atentados contra mim mesmo. Sem graça e sem interesse, não ria de modo nenhum e pouco falava também, era acuado e franzino, diferente dos outros meninos atléticos e bem apessoados. E como qualquer um, certa vez, fui levado à escola, achando tudo muito enfadonho e indeferente, não me dei ao trabalho de fazer amigos, nem me interessar por meninas bobas e infantis. Cresci meio isolado do mundo, sem conhecer os prazeres e amarguras de viver em sociedade, porém por escolha propria, pois coisa alguma seria capaz de me livrar desse estado ranzinza a que me submeti. Tentei arranjar alguns oficios, mas o máximo que consegui foi o de carpinteiro o qual não dava muito dinheiro e nem era gratificante. A sorte mesmo foi a morte de minha bisavó Cândida que me deixou uma gorda herança me permitindo parar de trabalhar e viver relativamente bem sozinho. Hoje aos 60 anos, fui apresentado a uma tal de vitrola, aparelho esquisito que toca musica, e junto com a vitrola me apresentaram também a Almerinda, a nova vizinha que se mudara semana passada, e que só hoje me fora apresentada, juntamente à vitrola, pelo balconista da mercearia. Aqueles foram os mais belos cabelos que já vi em minha vida, e ao me aproximar para cumprimenta-la, meio sem jeito, senti seu cheiro irresistivel, que entrou em mim e me fez mal, me contorceu, me sacudiu, me estremeceu, me sufocou, me fez sentir algo estranho, agradável e incoveniente ao mesmo tempo, que nunca havia sentido. Afastei-me depois de dois beijos e vi Almerinda piscar um dos olhos para mim ao ir embora, instantaneamente uma onda de calor me invadiu e sem perceber o que estava fazendo, sorri, pensando em quanto eu devia estar devendo, nesse momento, ao rapaz do balcão.

domingo, 5 de julho de 2009