terça-feira, 31 de março de 2009

Desalinhado


Aqueles lados instantâneos,
deixavam os suspiros em segundo plano,
acentuando palavras quase inaudíveis,
e apenas dois em comum.

Qualidade superior do sentido,
Estágio incompreensível,
Traço esboçado que trouxe alem da memória,
um riso contido.

Os amassados por toda parte,
assim como o desalinho do lugar,
revelam mais,
e quando a percepção os atinge,
prontamente surgem mãos para ajeitar, o breve espaço de contentamento.


sexta-feira, 27 de março de 2009

Realeza



Fraco senhor já avariado,
Tratou do próprio negócio,
e do egoísmo deglutido,
Firmou opinião no pé de uma mangueira.

Considerado fora do padrão,
submeteu-se a si mesmo,
foi trancado consigo,
no íntimo da suntuosa construção.

Surpreenda-se, caro errante,
Ao saber que fim levou o rei,
Evadiu com um grande montante,

Para onde sua alma dita a lei.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Elixir da Loucura (ou água)

Com uma animação súbita que a fez abrir a boca, veio a intenção de expor o inesperado. Já que não havia uma viv'alma por perto, resolveu dar uma volta no centro daquela cidade do interior parada no tempo para espairecer. Andava sem compromisso nem direção, apenas andava para que pudesse ver alguém vivo, que de repente estivesse disposto a ceder seus ouvidos por alguns poucos - poucos é eufemismo - minutos. Mesmo sem avistar ninguém continuava andando pela rua de meio fio pintado, achava que pelo menos estaria se distraindo ao invés de ficar trancafiada em casa aprendendo lições de tricô com sua avó. Parando pra pensar, era isso que sempre havia feito. Eram raros passeios aleatórios, assim no meio do dia. E no meio desse pensamento egoísta e injusto, foi surpreendida por um dos portões, que eram enfileirados nas calçadas, completamente escancarado. Poderia ser qualquer outro portão, exceto esse, esse não podia. Pertencia à louca das redondezas (sim, pois toda redondeza que se preze tem que possuir uma louca, ou seriam sempre as loucas que possuíam os lugares?). Era uma mulher estranha que nunca dava as caras e que um dia tivera sido uma jovem alegre e satisfatoriamente saudável, segundo contavam as histórias das velhas desocupadas. Resolveu averiguar. Tentando flutuar para não fazer barulhos inteiramente indesejáveis, foi ganhando os metros de um jardim extenso e muito mal cuidado. Conseguiu alcançar o vistoso porém enferrujado portão, sem que houvesse ouvido berros de desagrado e protesto, o que tivera sido uma incrível façanha, e rezando baixo para que o portão não fizesse nenhum rangido, entrou no corredor parcialmente escuro graças às placas de madeira que a dona da casa (a louca), tivera posto em algumas janelas. Ao acostumar-se à pouca quantidade de luz que havia no aposento, conseguiu distinguir algumas formas. Vira que as únicas e poucas fontes de claridade do lugar eram provenientes de grandes buracos nas vidraças causados pelas pedras que os moleques das vizinhanças jogavam na casa, numa forma de insultar a pobre louca, e que agora jaziam espalhadas pelo assoalho. Não conseguia mais sentir a aversão, o asco que sentia da louca, sentia agora piedade pela solidão e pelas condições subumanas em que, agora visivelmente, vivia uma mulher como qualquer outra, a não ser por uns parafusos a menos. Foi avançando casa adentro até que pôde ver um dos portais aberto, não havia nem sinal de porta, devia ter sido arrancada. Entrou sorrateiramente e tentando distinguir, em meio à penumbra, toda aquela quantidade enorme de móveis empilhados um em cima do outro. Parecia que a louca escolhera se refugiar da ignorância alheia em apenas um cômodo de uma casa modestamente espaçosa. Bárbara continuou tentando diferenciar os objetos. Chegou a reconhecer um piano de calda coberto de caixas de papelão, provavelmente contendo copos, imaginou. Foi quando olhou para o outro extremo e viu uma cama (ou o que sobrara de uma). O primeiro instinto foi de sair correndo para longe, mas algo a fazia crer que havia alguma paz naqueles olhos quase imóveis. Era como se a louca não guardasse nenhum tipo de rancor por tudo o que já haviam feito contra ela. Bárbara aproximou-se e sentou-se ao lado da pequena figura. Apesar do calor, o corpo, aparentemente, frágil estava embaixo de um cobertor de lã. Num instante, a mão quase só de ossos levantou-se aberta, como num apelo desesperado, urgente até. Sem saber o que fazer, Bárbara tentou procurar algum frasco de remédio ou qualquer coisa do tipo, mas nada encontrou. Voltou a olhá-la e a mão continuava estendida, parecia que agora tentava emitir algum som, mas de sua garganta seca não se projetava sequer ruído. Bárbara tratou de buscar um copo d'água, e quando a mão da louca a tocou para pegar o copo, sentiu repulsa, não pôde negar, sua expressão facial com certeza a denunciara. Mas estava tudo bem, a louca parecia indiferente à sua expressão. Ao alçar o copo, a louca o levou à boca o mais rápido que pode parecer possível, e após alguns minutos e um simples bocejo caiu no sono. Bárbara ainda cogitou a possibilidade de chamar um médico mas acabou desistindo, era disso que a louca precisara: um copo cheio da boa e velha água. Então, teve que se contentar em voltar para casa e realmente aprender a tricotar, pois a louca definitivamente não serviria para seus desabafos.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Alpiste


Cálido sopro,
marca pelo avesso,
poucas formas aleatórias.

Ao menor sinal da manhã,
revela-me azul e limpo,
recheado pelo sonho,
acompanhado pelo desejo,
empurrado pela possibilidade,
da escassa liberdade.

Um sonoro baque metálico,
Diz a hora de usar a asa,
prestes à derreter,
frente ao tempo escaldante.

Apenas um pio arisco,
vindo de um pássaro amarelado,
sela os receios,
da obrigação ainda cumprida,
de viver entre,
as mais sólidas grades.

terça-feira, 17 de março de 2009

A quantas anda?


Como vai?
tratando como seria adequado?
possível que sim,
provável que não.

Algum visível progresso?
Adornado pelo tempo desocupado,
é crível que não,
apesar da contida indiferença.

A quantas anda?
Ao sopro da liberdade,
indo junto ao que agrada,

à toa na esquina da insanidade.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O caminho de volta

Batucando e sentado numa das primeiras fileiras de cadeiras do ônibus, sentia que nada tiraria sua pacífica forma de alegria momentânea. Com quase metade da cabeça para fora da janela suja e engordurada ia recebendo as fortes lufadas de ar em cheio. Mas agradava-lhe a sensação, era bom sentir as bochechas sendo distorcidas com tamanha velocidade do vento lá fora e o cabelo ficar modelado com formas estranhas e engraçadas. Aproveitava as emparelhadas com outros ônibus para tentar pensar em cada história que estaria por trás daqueles rostos tão comuns, sérios e carrancudos. Todos, principalmente os mais comuns, o deixavam absorto nas inúmeras possibilidades que construía ao longo do caminho até em casa. Os rostos peculiares eram mais fechados à palpites e por isso mesmo, menos observados. Como passatempo até que era interessante, e quem sabe, talvez, até acertasse algumas interpretações. Já que o caminho era longo podia montar e desmanchar dezenas de histórias para o mesmo rosto, e era o que mais gostava de fazer quando não havia nada para se ouvir. Ia de Vila Isabel ao Méier assim, olhando, e imaginando, e formulando, e desistindo da idéia, e confeccionando outra. Numa noite em que voltava pra casa, com a cabeça quase que inteira para o lado de fora, deixou que todo volume de vento se encontrasse com sua face e sentiu em meio aquela densa quantidade de ar um fino rastro de perfume, um cheiro doce e suave. Aspirou com veemência para ver se percebia mais algum resquício, e foi brindado com mais uma rajada de ar que trazia enrolada em si o mesmo traço de cheiro inebriante. Inundou seus pulmões e fechou os olhos tentando buscar alguém a quem esse cheiro lhe remetesse à lembrança. E se convenceu de que era um cheiro levemente semelhante ao de uma flor, o que lhe fez lembrar, prontamente, de quem havia acabado de deixar antes de subir no transporte coletivo. Automaticamente, tentou criar mais uma história, que agora envolvia si mesmo e apenas uma memória tão íntima e sentimental, e por incrível que parecesse não foi capaz. Tentou diversas vezes, mas não chegava a uma única conclusão, chegava a encruzilhadas em que se misturavam fatores irreversíveis, e era aí que destruía o esboço ineficaz. Apesar de saber muito ao certo o que desejava nessa história era difícil decidir os detalhes, sabia que seria frutífero de verdade, mas o modo ou a maneira com que isso aconteceria era demais para seu humilde intelecto. Desistiu então de se envolver nas hipóteses, observou apenas aqueles rostos cansados e sem expressão que o seguiam no próprio ônibus ou até mesmo na rua pelo caminho. Andando depressa e com a mão nos bolsos da calça xadrez, seguiu o pedaço que faltava à pé mesmo, alisando vez ou outra o cabelo bagunçado de sempre, pensando no dia em que saberia de cor todos os detalhes da única historia que mais lhe interessava.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Pesadelo

Conjuração breve e inocente,
sem vigor, frio inconcebível,
análogo ao velho estridente,
vem o sonho torto e horrível.

Coletanea mais que amargurada,
brota do escuro repleto de vazio,
como uma aparição que é congelada,
dá meia volta e deixa-me sem brio.

Antes de o desconhecido me enrolar,
os fios que me ligam à lucidez,
passam ao longe prestes à rasgar,
enquanto vi o sentido se esvair com rapidez.

Tamanha aflição que gera até conflito,
não tem controle sobre o que irá arruinar,
faz da minha garganta sair um intenso grito:
Preciso acordar!