quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Varredor Gatuno

Ventou,
e carregou consigo ventos e folhas,
espalhou a superfície,
acomodou-se além das paredes triviais,
que muitas vezes o inibiu.

Resolveu, em meio à tempestade,
juntar-se à mesma,
confraternizar com o desconhecido e tenebroso,
o resultado, que coitado,
não levou mais do que alguns fios do meu cabelo já caídos.

Ao se agregar ao tempo,
repousando nas suas horas e minutos,
acostumou a me ladear pelas tardes de ventania,
tentando, talvez, me furtar.

Simples e conscientemente aproveitei a oportunidade,
entregando-lhe,
a ausência que sentia,
sem ao menos perceber no erro que me enroscava.

Aquele que me roubou capilares,
assustou-se prontamente,
recusa declarada.

Ouvi dizer que agora anda aos quatro cantos,
sussurrando nas esquinas,
pra quem quiser ouvir,
que não aceita,
de modo nenhum,partes de uma essência.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Cortando o mal pela raiz

Saíram do teatro fascinados com o esplendor da obra. Roberto ia ao volante enquanto Sonia já cochilava no banco do carona. Havia sido uma noite maravilhosa naquele aniversário de 5 anos de casamento. Sonia era visivelmente muitos anos mais jovem que Roberto, o que já fora motivo para muita discriminação. Devido também à diferença de tempo, Roberto sentia que sua esposa seguia a vida um tanto quanto entediada. Eram raros dias como esse, em que saíam em busca de algum entretenimento. Normalmente no começo da noite Roberto já sentia o cansaço de um dia inteiro de trabalho na sua loja de doces lhe abater. Tinha que trabalhar tanto, na função de caixa, que não conseguia dedicar o tempo nem atenção que julgava necessários à sua querida mulher. Sonia tivera uma infância privada de confortos ou mordomias, vivera sua vida infantil e adolescente numa humilde casa com seus pais que tanto trabalhavam para que tivessem ao menos algum alimento e roupas para se cobrir. Ao contrário, Roberto vivera em ótimas condições aquisitivas, uma vez que seu pai construíra aquela loja de doces frequentadíssima e que agora lhe pertencia por uma questão hereditária. Quando casou com Roberto, Sonia teve que se adaptar ao fato de possuir algum dinheiro de sobra. E como alguns, ou melhor, a maioria sabe, o dinheiro é capaz de proezas inacreditáveis em questão de beleza. Mulheres completamente desprovidas de beleza, são transformadas em elegantes e formosas damas, imaginem então o que o dinheiro foi capaz de fazer com Sonia que era uma mulher relativamente bela, apesar da simplicidade. Tornou-se uma mulher desejável, cobiçada por muitos. A vizinhança teimava em questionar o estranho e curioso porquê de uma mulher tão esbelta e jovial conservar-se casada com um homem já velho, franzino e sem vigor. O mais intrigado com a união, nem morador das redondezas era, estava ali apenas de férias, pois algum tempo depois teria que voltar a servir seu país como um simples e fiel marinheiro. Chamava-se André e se interessou tanto em Sonia que passava horas dentro da loja só para vê-la corar com os olhares provocativos que lhe dirigia, já que Sonia servia como garçonete algumas vezes. Completamente atraída pelo jovem atlético de cabelos curtos e negros, deixou-lhe um bilhete no guardanapo um pouco antes do cavalheiro retirar-se. Começaram a se encontrar furtivamente no quarto que André estava hospedado no hotel da esquina, logo depois que Roberto caía no sono. Roberto notava Sonia muito distraída e vez ou outra a surpreendeu suspirando pelos cantos. Achou estranho, porém resolveu não perguntá-la nada e investigar por conta própria. André teve que voltar para a marinha e prometeu a Sonia que voltaria assim que pudesse para dar um jeito de ficarem juntos. Depois que André partiu, Sonia passou a viver somente em função das cartas que recebia semanalmente, vivia deprimida e calada, com os olhos sempre inchados por conta do choro aflito e desesperado. Roberto percebeu a diferença brusca no comportamento de Sonia e deduziu que o suposto amante deveria tê-la deixado, percebeu também o sorriso melancólico que Sonia dava quando recebia as correspondências. Numa tarde em que Sonia fora fazer compras, Roberto deixou o balcão da loja vazio e foi até em casa para averiguar, minuciosamente, o quarto de Sonia, em busca de provas. Lá encontrou, no bolso de um casaco que ele mesmo havia comprado para ela, um maço de cartas preso por um fino e frágil barbante. Confirmou suas suspeitas e ficou a par de toda a desgraça que se espalhava sobre sua vida, até então, tão pacata. Tanto foi o choque que levou, que formulou um plano insanamente maldoso. Passou algumas semanas fazendo os preparativos, e após isso, estava completamente seguro da tarefa que ele mesmo se destinara. No dia planejado, no final da tarde, Roberto pediu para que Sonia o substituísse por alguns minutos e escondeu-se atrás da porta da sua casa. Quando Sonia ouviu os dois estampidos e clarões que se seguiram, correu até a entrada da casa e viu um par de botas para fora do portão. Sonia alcançou a porta e viu o sangue saindo do corpo uniformizado do homem. Sonia perdeu os sentidos e quando acordou estava no sofá de casa. Então completamente arrependido, Roberto lhe explicara que lhe amava muito para deixar que ela se envolvesse com outro, e que só atirara para que não recebesse mais aquelas cartas, pois era só isso que precisava para reconquistar-lhe, precisava de um tempo sem aquelas cartas atrapalhando, justamente por isso que resolvera matar o pobre e inocente carteiro. Como realmente pensara, Roberto conseguiu conquistar sua mulher por mais uma vez e assim continuaram a vida: Sonia, Roberto e o carteiro. Não! o carteiro não! Pelo bem maior, é claro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Partes

Aquela parte por milhão,
Jogada na terra, foi,
De repente,
caracterizou-se semente.

Aquela parte em milhares,
afogou-se nas lágrimas celestes,
absorveu toda claridade que pode,
e num estalar de dedos,
expulsou de si,
um caule franzino.

Aquela parte em centenas,
alimentou-se por si própria,
independência e estruturação,
agora fazem parte da rotina,
e quando a bola de luz apareceu no céu,
o frágil caule,
rendeu-se aos suspiros e balanços,
na majestosa forma de árvore.

Aquela parte entre dezenas,
forte, espalhava suas raízes,
mostrando-as sem receio,
exibiu suas virtudes,
e como graça,
gerou o bendito fruto.

Aquela parte entre uma só,
era suculenta e intrigante,
para alguns era até sem valor,
mas ainda hoje se propaga,
sussurrado pelos bem-aventurados,
chamam-no amor.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Destino Injusto

Tudo mudara. E não fora sua culpa, não podia continuar achando que era. Isso o consumia por completo. Com apenas trinta e seis anos, Estácio aparentava mais de cinqüenta. As circunstancias recolheram tudo que possuía de mais valioso num acidente de carro. Agora, completamente desamparado e sozinho, revirava-se todas as noites tentando dormir num dos becos amarelados da cidade. Andava tão mudado e acabado que seria dificil algum de seus poucos e fiéis amigos lhe reconhecesse ao passar pelo trapo de gente em que se transformara. Aquele resquício de fé que ainda possuía lá por dentro é o que o mantinha quando seu estomago já havia passado inúmeras horas sem nenhuma visita. Deitado no meio fio de uma rua pouco movimentada, Estácio conseguiu ouvir um pequeno fragmento de conversa que se desenrolava entre dois transeuntes. Falavam sobre emprego. E, meio confuso e também abalado por todos os choques e sacolejadas que o destino lhe impusera, pensou que talvez ainda houvesse aquela, pequena, mas até tranqüilizadora, chance de viver novamente. Não que estivesse morto, mas aquilo pelo que passava não se classificava como viver, definitivamente. Mas porque tinha de acontecer justo com ele? Que tivera tantos sonhos felizes? Por que o destino, de maneira tão repentina, lhe injuriou com tremenda frieza? No, aparentemente, infinito espaço de tempo que passara suas noites abaixo daquele teto cheio de pontos luminosos, Estácio tornou-se amigo de um dos caixas de um supermercado que ficava ali por perto. Estácio conseguiu convencer Chico a lhe ceder seu banheiro para que pudesse dar um trato na sua imagem há tanto distorcida. Chico como bom homem que era, deu-lhe também alguma peça de roupa, uma valise para que pudesse carrega-las e algum trocado que guardava para casos emergenciais. Com apenas o necessário, Estácio saiu em busca do tão esperançoso e promissor emprego. Mas para que teria aptidão? Sempre trabalhou na contabilidade da loja de seu sogro, o que na verdade nem era bem um emprego de verdade, consistia apenas numa maneira para que seu sogro pudesse lhe sustentar sem ter que fazer isso diretamente, o que seria humilhante em demasia. A única coisa que arranjara era fazer entregas com uma velha bicicleta emprestada, entregava marmitas de um restaurante pouco frequentado para algumas casas. Com alguns meses de salário, decidiu procurar algum canto em que pudesse usar apenas para passar as noites, algo pequeno e que pudesse pagar com o magro salário que recebia. Foi procurando nos jornais que Estácio encontrou o minúsculo quarto que passou a alugar. Sua senhoria era uma mulher com aspecto muito severo, e apesar disso deixava transparecer, por estreitas brechas, um encanto fora do comum. Nos dias utilizados para adaptação, Helena mal se dirigia ao seu inquilino. Acha-o atraente, sim, mas não podia deixar se levar por um homem que pouco conhecia. Sempre à noite Helena dava uma espiada no estreito corredor e via aquela velha e maltratada bicicleta, e só isso já a confortava. Sentia que era bom ter um homem por perto, isso lhe transmitia segurança. Num piscar de olhos Estácio viu-se completamente envolvido por aquela mulher de traços rígidos e belos. Apesar de tamanha atração de ambos os lados, não havia quase contato nenhum entre os dois. Mal se dirigiam as palavras e quando trocavam sons era apenas para tratar de pagamento. Algum tempo depois, a bicicleta que se encontrava encostada na parede do corredor transformou-se numa moto bem reluzente e aquele relacionamento de estranha e distante afinidade transformou-se num verdadeiro romance. Era estranho para Estácio recomeçar, sentia que podia se decepcionar outra vez já que o destino não era muito seu amigo. Ainda dormindo em quartos separados, pois não queriam se precipitar e se envolver demais, Estácio e Helena formavam um belo casal. Estácio era muito instável, algumas vezes Helena ficava dias e até semanas sem ver a cor dos cabelos de seus cabelos. O que a confortava sempre era ir até o basculante e avistar o brilho metálico da motocicleta. Após um mês sem ver Estácio, Helena tentou chamá-lo ou fazer qualquer outra coisa para que aparecesse, mas alguma coisa dentro de si a fez recuar imediatamente. Era seu orgulho. Seu orgulho não permitia que chegasse a tal ponto. Se ele não queria a ver por tanto tempo deveria ter seus próprios motivos. E no dia vinte e três de julho de 2002, bem de manhãzinha, Helena saiu para fazer compras e viu, em cima da prateleira do corredor, o pagamento pelo aluguel do quarto. Isso não era comum, Estácio nem mesmo se deu o trabalho de esperá-la para entregar o dinheiro, ele nunca tivera sido tão frio antes. E naquela noite a agonia tomou conta do corpo de Helena. No momento em que se esgueirou no parapeito da janela para avistar a moto, nada viu. Pegou a chave reserva e viu que não havia mais nenhum pertence no quarto alugado. Nesse dia morto, vazio, cinzento e empoeirado, o injusto destino simplesmente alcançara Helena.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Raiva às margens do ridículo

A raiva, inconsciente que é,
encosta sua lingua de dragão no frescor do rio,
E, ganaciosa que também o é,
deita-se ao leito do desconhecido.

Trajando enorme montaria alada e flamejante,
o possuidor das labaredas insanas,
de maneira impiedosa se apossa da água,
água viva,
rio viril,
batizado com nome e tudo,
e se apodera, quem me dera, para apaziguar a montaria.

O que soube,
mesmo sem querer saber,
muda-lhe o destino de olhos arregalados e inquietos,
admirou-se`a placa:
Rio Ridículo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Maestro

A noite já insistia em cair como um véu, e Luiz ainda se encontrava deitado, tentando afastar as primeiras impressões confusas do sono. Inalteravelmente pacato, foi logo verificar as horas, tentando calcular o tamanho do atraso que causaria. Nem seria tanto assim, o concerto estava marcado as 10 e meia e ainda não passava das oito. Pegou aquele velho calhamaço de partituras e teve que se lembrar da tamanha responsabilidade que carregava tendo que reger aquela imensa orquestra completamente sozinho, uma leve e breve alteração nos movimentos de seus braços erguidos e tudo ia por água abaixo. Começava a sentir aquele angustiante frio no estomago. E se de repente sentisse algum tipo de coceira? estava tudo acabado. E se sua vista cansasse e por ventura pulasse algumas linhas? Estaria tudo arruinado. E se por algum motivo sentisse câimbra nos braços? Estaria tudo indo por água abaixo. Não, não precisava pensar nisso tudo. Era, sem dúvida, uma responsabilidade fora do comum, mas era assim que vivia, e assim que tivera escolhido. Talvez até se arrependesse de largar tudo o que tinha para viver viajando de hotel em hotel completamente sozinho apesar da grande quantidade de músicos da orquestra. Tentando manter-se longe desses pensamentos começou a se vestir. Estracinhando-lhe as esperanças, os pensamentos não desmanchavam. E se algum dos músicos esquecesse sua hora de entrar na peça? E se entrassem na hora errada? Será que os violinos estariam todos afinados? Toda e qualquer questão que lhe aflorasse na mente só resultava em uma coisa: Estava perdido. Havia há tanto partido de casa e sempre, nesses 20 anos de regência, e sempre que estava preste a subir no palco pensava nessas coisas e na volta pra casa no caso de tudo dar errado. Será que ainda esperavam por ele? Talvez não mais. Impecável e adequadamente vestido, chamou o táxi e continuou pensando. Porque sempre havia esse desespero? Esse nó na garganta? Tentou, mesmo que soubesse que seria em vão, mais uma vez distrair-se para evitar essa angústia tão intensa. Minutos antes de subir ao palco arriscou um palpite. As dúvidas e a aflição conseqüente eram uma forma essencial com que se conservasse concentrado. Serviam para que, através do desespero, alcançasse o tão almejado sucesso. Era necessária uma dose considerável de desespero para que conseguisse. Não que o desespero fosse o principal responsável por isso, havia o seu talento nato, o seu esforço. O desespero era útil para dar aquele retoque final, como uma pequena injeção de adrenalina no sangue. Serviu, em todas as vezes, para que Luiz desse seu melhor, para que fizesse com que nada fugisse do seu controle. Seu palpite talvez tenha o transformado, pois Luiz errou tanto durante o concerto que as lágrimas fugiam dos seus olhos, talvez tenha sido por perceber que seria uma eterna vítima do desse inconcebível desespero,pois mesmo que ainda possuísse o livre-arbítrio, simplesmente nascera pra isso.